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O filme na tela, qualquer tela.

A distribuição, sim, é um problema para os filmes nacionais. Na verdade, muitos especialistas e cineastas apontam-na como o grande gargalo do cinema tupiniquim. Ora, incentivos para a PRODUÇÃO de obras audiovisuais tem de rodo [já que existem diversos editais tanto do governo quanto de empresas privadas, incentivo a co-produção com investidores estrangeiros, etc], entretanto, a difusão e exibição dessas obras são sempre relegadas a segundo plano. A distribuição é a última etapa do processo pelo qual passa qualquer filme. É isso que permite que ele seja consumido e conhecido de diferentes formas e em diferentes contextos. Porém, como fazer com que nossa produção chegue ao povo, na maioria das vezes principal financiador dos filmes?

Um caminho é estudar/experimentar alternativas à Indústria Cultural que massifica e padroniza a produção de bens criativos, formando plateias pouco reflexivas e que, pra piorar, renega seu próprio cinema. Desse modo, faz-se necessário se debruçar sobre a academia – espaço privilegiado para experimentação – a fim de lançarmos o olhar sobre uma realidade possível de difusão mais equânime do cinema nacional. Nessa perspectiva e por iniciativa do Programa de Estudos Tutoriais em Cinema – PET Cinema, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, foram lançados os princípios básicos da Rede Nordeste de Cinema Universitário. O evento aconteceu durante o primeiro encontro da Rede, que reuniu representantes de universidades, coletivos e entidades de classe ligadas ao audiovisual na cidade de Cachoeira, Bahia, entre os dias 27 a 29 de novembro. A Rede Nordeste de Cinema Universitário tem como objetivo promover o diálogo entre a produção universitária realizada nos diversos Estados do Nordeste, favorecendo a reflexão crítica, o aprimoramento da produção e difusão do audiovisual universitário.

Rede Nordeste de Cinema Universitário

Grupo formador da Rede: Ramon Coutinho (CUAL), Guilherme Sarmiento (UFRB), Rita Lima (UFRB), Marcus Mota (Coletivo Azedume-SE), Alexandre Santos (UFRN), Marcelo Ikeda (UFCE) Arthur Lins (Coletivo Filmes a granel e UFPB), Mannu Costa (UFPE), Fátima Guimarães (ABD-Piauí), Izadora Chagas (UFRB), Carollini Assis (ABCV / ABD-BA)

A rede flerta com a necessidade de estudos das novas dinâmicas cinematográficas, alinhando-os aos conhecimentos sobre planejamento, mercado, público, legislação, comunicação e marketing do setor, para que estes estudantes – futuros profissionais – tenham uma perspectiva mais abrangente da atual situação do mercado cinematográfico, criando condições para modificá-lo e aperfeiçoá-lo. Algumas dessas produções universitárias transformam-se em experimentos de linguagem e outras em obras de valor técnico e artístico. A grande questão é de que forma o estudante entende esse produto – como obra para ser distribuída e enviada a festivais de cinema ou como um trabalho de disciplina curricular, feita tão somente para ser entregue ao professor.

Como aponta Cíntia Langie – Mestre em Comunicação pela PUCRS e professora dos cursos de Cinema e Audiovisual e Cinema de Animação da UFPel – “Na universidade, o jovem cineasta tem à disposição todos os meios necessários para fazer um filme – equipe (os colegas, os técnicos, os professores para orientar); equipamento (por maiores dificuldades que os cursos possam ter em questão de equipamento, há o mínimo necessário para se realizar audiovisual); circunstância (como são estudantes, podem, na maioria das vezes, se dedicar somente a isso); prazo (por mais que isso possa parecer ir contra o cineasta, ter um prazo de entrega é a melhor maneira de evitar a dispersão ou o abandono do projeto, tendências comuns ao cineasta iniciante); olhar crítico (com os erros cometidos, e com as críticas construtivas recebidas pelos demais colegas e pelos professores, o estudante tende a ver sua obra com olhar crítico) e vontade (pressupõe-se que quem escolhe fazer cinema está comprometido com a realização de filmes).

Partindo do princípio de que fazer cinema se aprende fazendo, pode-se dizer que dispor de todos os meios na universidade é a oportunidade de que o cineasta precisa para começar a construir sua carreira – construindo seu portfólio e sua trajetória no meio cinematográfico. O Coletivo Azedume, criado por estudantes da Universidade Federal de Sergipe, é um dos coletivos de produção audiovisual signatários da Rede Nordeste de Cinema Universitário por acreditar que  no momento em que um grande grupo de novos cineastas estudantes começar a ter a real noção da oportunidade que possuem durante o curso, poderá o cinema brasileiro pensar em um novo momento, um momento em que talvez o respeito e a procura por produtos nacionais, que já vem aumentando, aumente ainda mais.

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A revolta do passado

Recentemente fora lançado no youtube um canal chamado “Filmes Brasileiros Completos”. Lá, estão disponíveis, hoje, 133 produções nacionais de vários gêneros e épocas. Todas de graça. Há documentários premiados, como “Lixo extraordinário” e “Uma noite em 67”, blockbusters como “Tropa de elite 2” e “Carandiru”, e raridades como “Vidas secas” e “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Só que há também um problema quanto aos filmes do canal: nenhum deles teve autorização dos titulares dos direitos autorais para estarem na internet.Distribuidoras tomam no "olho"

Esse “problema” levou a Associação Brasileira de Cineastas enviar carta à Ancine (Agência Nacional do Cinema) pedindo que o órgão tome providências contra o canal. A Globo Filmes já retirou “Caramuru” e “O Auto da Compadecida”. Essa “revolta” parte principalmente de pessoas agarradas a um modo de produção-distribuição-exibição que está definhando. Esse modelo chegou a ser “denunciado” pelo ator Caio Blat (que se retratou em seguida) quando afirmou “No cinema a distribuição é predatória, ainda é um monopólio, são pouquíssimas as empresas distribuidoras e o que elas fazem é absolutamente cruel, elas sugam os filmes, não fazem crescer, sugam para elas, são grandes corporações”.

Urge pensarmos novas formas de distribuir nossos filmes para que eles cumpram sua principal razão de existência: serem vistos! Até existe grana para a produção, mas não para a difusão e nem para a exibição. O produtor se apega ao incentivo público como um rapaz à mesada dos pais, mas a cultura é um emaranhado de processos: não há razão para produzir se não for para exibir.

Trago a discussão para Sergipe: os realizadores da terra do Serigy pensam em disponibilizar, na íntegra, seus filmes na internet? Pensam em atribuir-lhes uma licença que permita a cópia para fins não-comerciais?

Poucos.

Para facilitar a circulação das obras dentro dessa estrutura de distribuição aberta, o primeiro passo é prepará-las legalmente. Assim, todo produto audiovisual subsidiado por leis de incentivo públicas, sejam elas federais, estaduais ou municipais, deveria ser licenciado sob a chancela Creative Commons Atribuição-NãoComercia 2.0 Brasil, que permite a livre cópia, distribuição e execução da obra para fins não comerciais, contanto seja dado crédito ao autor e a obra não seja alterada.

Ao contrário do que possa parecer, esse licença não significa prejuízo para os realizadores. Em primeiro lugar, ela simplesmente conforma o direito do autor à economia inevitável da Rede. No caso específico da atual estrutura brasileira de distribuição cinematográfica, pouco (ou nenhum) lucro lhe advém da exibição do filme. Não há espaço para curtas metragens nas salas comerciais, e para ingressar o circuito dos festivais o realizador tem que de certa forma pagar – a postagem, a cópia –, sem ter a certeza de ser selecionado e muito menos de receber qualquer coisa por isso. Os longas, mesmo quando chegam aos cinemas de Shopping, não conseguem lucro nas bilheterias a menos que haja um investimento maciço em publicidade. O fator descaso abre precedência para uma espécie perversa de darwinismo, onde as cotas de exibição se prestam a garantir um mercado infalível para o blockbuster nacional.

No fim das contas, o realizador recebe pela direção ou produção e não pelos dividendos de exibição. Por isso, a subida dos filmes na íntegra para internet e subsequente licenciamento em copyleft, não é questão de vã justiça social, mas de estratégia para fomentar ambos os extremos do circuito cinematográfico.

Com os filmes circulando livremente, a figura do atravessador desaparece e a cultura em si – troca simbólica de experiências – deixa de ter um preço… ou um dono. O eixo econômico do cinema se desloca: assim como o realizador ganha ao fazer a obra, o exibidor ganha ao efetivamente exibi-la, isto é, prestar um serviço que envolve desde a curadoria de escolha do filme até a logística de montagem da sala de projeção.

P.S. Vamos baixar tudo o que existe nesse Canal do Youtube antes que ele saia do ar!

http://www.youtube.com/playlist?list=PL9CBB5A6C86BEA452

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