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É preciso ocupar criativamente a cidade

A alguns séculos atrás fui um dos delegados do Orçamento Participativo aqui em Aracaju. Morava no Dom Pedro I e fui lá exercer minha cidadania (ainda que limitada). Ali comecei a me reconhecer como cidadão urbano e capaz de alterar, mesmo que minimamente, a realidade ao meu redor. O Ministério das Cidades, criado nessa época, apontava para uma percepção diferente do “viver na cidade”.

A cidade é fruto da população que a habita. A população não é vítima da cidade. A sociedade não é vítima da construção que faz do espaço que ela habita. A cidade é fruto, justamente, da correlação de forças, da ação, dos desejos e dos desígnios que a pessoas colocam para esse espaço. E a apropriação desses lócus pode e deve ser criativa.

Partindo desse princípio, semana passada (mais precisamente num domingo à tarde) uma das ruas de Aracaju fora ocupada com muita arte e escambo de materiais criativos. Trata-se da Feirinha da Gambiarra que reuniu músicos, exibição de vídeos e comercialização de produtos alternativos e exclusivos. O acesso totalmente gratuito.

Pessoas se encontrando. Pessoas que são amigas nas redes virtuais, tirando uma tarde de domingo para conversar pessoalmente. Um hábito que vem sendo perdido com o advento da internet que tanto aproxima e afasta os humanos. Uma fruição de pensamentos e ideias. A rua como espaço legítimo da construção do ser-social. A cultura se manifestando nos sons, calçadas, paredes e conversas.

A cidade é fruto da nossa vontade e do que nós queremos, enquanto população. Mais emprego aqui, mais habitação acolá, mais espaço público aqui, existem lugares da cidade que precisam de recuperação ambiental, existem lugares que precisam de emprego, existem lugares que têm demanda habitacional. E existe a necessidade de cultura.

A Feirinha da Gambiarra é uma tentativa.

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Uma outra cultura para a política cultural

No dia 5 de outubro de 2011 fora lançado o Projeto Orlando Vieira, um pacote de ações que foi desde a exibição de filmes com acesso gratuito, ao Edital de Apoio à Produção de Obras Audiovisuais Digitais de Curtas Metragens, cujo investimento foi de R$ 150 mil. Cinco roteiros foram selecionados e estão em fase de finalização.

Na época, o Fórum do Audiovisual – mesmo capenga – fora convidado a palpitar sobre o projeto de Edital da Secretaria de Estado da Cultura (SECULT). Um catatau de alternativas, propostas e reformulações foram apontadas. Quase nenhuma foi acatada pela SECULT, com exceção do aumento do valor que subiu de R$60 mil para R$ 150 mil reais de incentivo. Críticas ferrenhas à maneira como os trabalhos foram conduzidos se tornaram frequentes. Alguns reclamam até hoje da ausência de política pública pra cultura.

Não se pode afirmar, no entanto, que o Estado, a partir de redemocratização, tenha se omitido completamente da formulação de políticas culturais. Este ponto tem se prestado a confusões. A ciência política crítica ensina que o Estado não foi criado para resolver conflitos (entre capital e trabalho, interesses particulares e sociais, burguesia industrial e agrária), antes, ele age para garantir a reprodução do sistema. Tanto a Lei Rouanet como Editais de Incentivo e outras saídas do mesmo molde constituem uma autêntica política de Estado, e não apenas de governo. É por isso, aliás, que a passagem de bastão entre tucanos e petistas não provocou alteração estrutural na área. Mudaram os governos, mas a orientação geral continuou a mesma.

Em 2012, fomos convidados mais uma vez a dizer o que pensávamos sobre o Edital de Produção. Desta vez, o projeto irá homenagear Wilson Silva, cineasta sergipano esquecido. Realizadores, estudantes, professores e entusiastas do audiovisual se reuniram, debateram e propuseram uma ruma de mudanças no Edital de 2011 buscando retificar distorções e ampliar as possibilidades do certame de acordo com as demandas da classe. Não adiantou…

O Edital possui questões gravíssimas que podem justificar, inclusive, processos judiciais posteriores. A questão do direito autoral sobre as obras realizadas é um ponto chave. Na proposta original, os realizadores assinam documento transferindo os direitos para a Secretaria. Isso é impensável, levando-se em conta a legislação em vigor. Além disso, o investimento continua diminuto, mesmo o audiovisual sendo linguagem que exige um aporte financeiro poderoso.

Faltam recursos para a cultura, certamente (embora a SECULT, ironicamente, tenha alguma dificuldade em executar seu magro orçamento), mas também, e sobretudo, falta um novo projeto. Com a ausência surgem os paliativos. Precisamos garantir a execução do Edital esse ano e cobrar incessantemente maiores ações para o setor. Entretanto, uma nova e consequente política cultural não pode se apoiar em uma ou outra formulação legal, por mais criteriosa e socialmente justa que seja. Ela não pode se resumir ao debate sobre Editais, embora não se possa negligenciá-lo.

Concordo com o produtor cultural, Fernando Kinas, quando afirma que “é preciso um conjunto amplo de iniciativas, amparado por definições políticas claras (dinheiro público gerido de forma pública é uma delas) e recursos à altura dos problemas e das necessidades atuais (a Proposta de Emenda Constitucional 150, que prevê a aplicação de 2% do orçamento federal, 1,5% dos estados e 1% dos municípios em Cultura, é uma medida neste sentido).”

O Plano Estadual de Cultura também é um caminho, mas a classe também precisa dar sua contribuição. Ora se colocando de forma crítica e frontal, mas também construindo alternativas. Em Sergipe, mal conhecemos quem está produzindo audiovisual. Urge concentrarmos forças na consolidação do Fórum do Audiovisual, espaço legítimo de disputa, para levantarmos minimamente as condições dessa linguagem no Estado. Paralelamente, precisamos produzir. Discutir cinema com filmes, sem nunca se esquecer da reflexão.

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