
Quem define um marco na história? Uma análise do projeto Xandrilá
abril 8, 2011Posso dizer finalmente que assisti Xandrilá. O auditório da UNIT/Centro onde aconteceu o lançamento estava entupido de gente na última quarta (6) que prestigiaram também duas apresentações musicais bem díspares quanto ao estilo: patrícia polayne e karne krua. Ambos assinam a trilha sonora do filme.
A análise que pretendo fazer será dividida em dois eixos: o “projeto” xandrilá e o filme em si. Creio que a crítica deve ser pensada levando em consideração diversos fatores sem revanchismo e muito menos puxação de saco. Enfim, uma análise simples e objetiva.
XANDRILÁ ENQUANTO DIVISOR DE ÁGUAS
Parafraseando Lula “nunca na história de Sergipe se viu tanta movimentação midiática em torno do lançamento de um curta-metragem produzido e finalizado nessa terra”. Isso é fato. O trabalho de publicidade capitaneado pelo diretor André Aragão e o diretor de fotografia Arthur Pinto fizeram com que o assunto nas rodas “cult” de Aracaju fosse o mistério do roteiro desse filme. Revistas, jornais e programas de televisão tiveram como pauta a película de André. E olha que só tínhamos um pequeno teaser no blogdoxandrilá que revelava bem pouco.
Além disso, vimos pela primeira vez um conglomerado de empresas sergipanas patrocinando um curta-metragem independente. E aqui está a força do projeto xandrilá. Eles conseguiram fazer com que uma parcela da iniciativa privada entendesse a importância de se valorizar o cinema sergipano. Essa deixa pode alavancar diversas produções engavetadas por falta de incentivo ou por falta de vontade. E aqui iniciamos o círculo virtuoso de que tanto precisa a cena audiovisual sergipana: produção-incentivo-exibição-mais produções-mais incentivos-mais exibições-formação de público que exigirá mais produções, enfim uma cadeia produtiva do audiovisual poderá nascer a partir de um pequeno filme.
Conversei com o diretor do filme André Aragão hoje pela manhã que se mostrou bastante lúcido quanto ao significado de xandrilá nesse momento. A obra é bem menos importante que a força que ela traz em seu bojo. Quem está criticando a obra de forma a desmerecer a iniciativa está metendo os pés pelas mãos. Existe muito ressentimento de realizadores que, por décadas, produziram seus curtas para concorrer ao CURTA-SE, mas nunca pensaram em criar uma rede de produção e exibição nem muito menos tiveram a coragem de dar a cara a tapa para ver seu filme nas telas sendo visto por muita gente. Os produtores de Xandrilá estão tendo essa coragem e vão enfrentar bastante dores de cotovelo da “elite” provinciana que se arrogava como detentores do monopólio cinematográfico sergipano.
O curta Xandrilá deve ser entendido dentro de um contexto. É preciso refletir sobre a atual conjuntura do cinema sergipano. Até Xandrilá passamos pelo movimento super-oitista na década de 70, algumas produções pontuais nas décadas de 80 e 90 e, em seguida o surgimento do CURTA-SE. Em 11 anos de festival tivemos muitas produções sergipanas concorrendo, porém não se tem notícia de um lançamento de curta e muito menos de badalação na mídia em torno de uma obra cinematográfica daqui.
No ano de 2009 é criada a habilitação Audiovisual no curso de comunicação da UFS. Quase ao mesmo tempo o Núcleo de Produção Audiovisual e o SESC investem cada vez mais em cursos de produção audiovisual. A união desses cursos com a vontade de jovens de produzir cinema em Sergipe está assentando as bases da profissionalização do cinema sergipano e um resgate do fazer cinema nesse estado. Do ano passado pra cá tivemos a criação do Kipá, do Fórum Permanente do Audiovisual em Sergipe, do Festival de Cinema Universitário de Sergipe – SERCINE [que acontece nesse mês], da mostra Filmes Del Rey – realizado pelo NPD ano passado e em agosto o Festival Sergipano de Micrometragens – tr3sminutos
O CURTA
Essa análise não ficará totalmente completa porque não assisti ao making off produzido pelo diretor de fotografia Arthur Pinto antes do filme começar. Quando cheguei estava sendo anuciado o nome de Bareta para falar ao microfone. Porém, assisti o filme todo e tecerei alguns comentários sobre a obra de André.
Creio que todxs xs presentes estavam imensamente ansiosxs. Em todo lugar só se ouvia dizer que o filme ficara incrível, que as lentes de Arthur haviam captado imagens belíssimas e que a força do roteiro adaptado junto à direção de André iriam provocar xs espectadorxs de forma nevrálgica.
Entretanto, durante os 22 minutos de exibição, toda a força desses argumentos foram caindo vagarosamente por terra em virtude de atuações medianas e de um roteiro até certo ponto tedioso, marcado e desconexo. Ora, quem assistiu o vídeo ficou com a impressão de que xandrilá conta a história de Renata (Huana Paula) e releva a segundo plano o Pepper (Isaac Dourado) mesmo que sexo e drogas estejam equiparados na sinopse: “o PROJETO XANDRILA busca levar verdades muitas vezes ignoradas pelas pessoas, como o sexo e as drogas, mostradas pelo ponto de vista de um drogado e de uma viciada em sexo” (xandrila.blogspot.com).
Dizem que o melhor ator foi o controvertido apresentador Bareta. Porém, ele representou ele mesmo. Além disso, Amorosa deu um toque sutil ao filme e ganharia tranquila o prêmio de melhor atriz coadjuvante. Aqui percebo também um dado muito interessante que é justamente essa vontade dos realizadores de tratar de um assunto com pessoas do nosso convívio despertando no imaginário do público-espectador esse sentimento de pertencimento a um lugar. Coisa que não acontece quando assistimos filmes produdidos em outros lugares, obviamente.
A trilha sonora segurou o filme com as mãos compondo sensações de um ambiente underground que Aracaju talvez vivera em outras épocas quando a Karne Krua estava em seu auge. A sensibilidade de Patrícia Polayne faz o contra-plano (hehe) fundamental que poderia sugerir um certo dualismo na personalidade da Renata. Só poderia.
Os planos dos filmes são lindos. Duas cenas não saem da minha cabeça: quando Renata está em cima de algum prédio de Aracaju e a câmera focaliza seu rosto deixando a cidade lá embaixo envolta em uma névoa única. Também me recordo das imagens do puma verde-limão mostrado lateralmente focando o rosto de Pepper no retrovisor em alta velocidade. Me deu orgulho. A cenografia e o figurino foram bem trabalhados fazendo a junção perfeita entre o lugar, as roupas e os personagens. O filme te dá a vontade de sair à noite por Aracaju e descobrir um barzinho e algum lugar tranquilo. De conhecer essa juventude que não tem lá muita perspectiva e por isso se afunda nas drogas. De se entregar aos desejos sem questionar se está no caminho certo ou errado. Afinal, a quem pertence os nossos caminhos?
Enfim, Xandrilá é fruto de um movimento criado lá em 2009, portanto muito recente. As críticas ao filme são importantíssimas, pois complementam o trabalho. Em Aracaju existem pessoas que adoram cinema, especialistas na arte e gente que consome obras audiovisuais por puro divetimento. Esses três setores devem emitir opiniões sobre Xandrilá pois irá fortalecer a cena, desafiar novos produtores e manter os realizadores com os pés no chão.
P.S. Ficarei muito feliz se xs realizadorxs liberarem xandrilá na internet
P.S.2 | A liberdade que disponho nesse espaço me deixa bastante tranquilo para escrever exatamente aquilo que penso e falo em todo e qualquer lugar. Entretanto, como forma de evitar possíveis aborrecimentos futuros re-editei o texto cortando o fragmento que conta o desenrolar do filme. Àqueles que se sentiram ofendidos com minhas palavras minhas sinceras desculpas. Porém, não deixarei de dizê-las.
P.S.3 | As fotos foram retiradas do google .
Achei bacana a ideia delxs de ir atrás da mídia… Coisa que nem é tão difícil, mas que realmente ninguém fez com tanta eficiência. Só faltou colocar na internet… inclusive daria mais visibilidade para as empresas que patrocinam. Mas pela nota em maiúsculas pedindo respeito aos direitos autorais no rodapé do blog, elxs ainda não entendem o poder da internet.
Achei ridicula sua tentativa de ganha ibope em cima de xandrilá, eu estive na estréia e percebi ao ler seu texto que vc provavelmente não assistiu o filme, deve ter ficado preocupado mais em pensar nas bestairas que ia fazer.
“A trilha sonora segurou o filme com as mãos compondo sensações de um ambiente underground que Aracaju talvez vivera em outras épocas quando a Karne Krua estava em seu auge” – Se atualize, Karne Krua está no auge, com disco recem lançado e fazendo muitos shows!!!
“A sensibilidade de Patrícia Polayne faz o contra-plano (hehe) fundamental que poderia sugerir um certo dualismo na personalidade da Renata. Só poderia.” – deveria ter chegado mais cedo mesmo e ira saber que as músicas de Polayne dão suporte à Renata e Karne Krua a Peper.
Caro Claudio,
esse blog existe a anos e comento sobre os mais variados assuntos [alguns mais importantes que Xandrilá, levando em consideração o contexto sócio-político) além disso assisti o filme todo e tenho todo o direito de discorrer sobre o que penso do curta. Se você compreendeu o filme de outra forma não a desconsidero. Inclusive lhe encorajo a escrever alguma artigo em blog ou jornal.
O baixista do Karne Krua, Ivo, é meu amigo de longa data e conheço o trabalho da banda desde 2003. Tenho diversos amigos músicos que até me contam do renascimento da Karne (o que eu louvo, pois gosto muito) porém não se compara à época em que falar de hardcore/rock em Aracaju era falar da Karne Krua.
Na verdade creio que na ânsia de defender teu ponto de vista você não tenha atentado para o fato de que deixei claro (na primeira edição do texto). Eu assisti aos dois shows e vi o filme todo depois. As músicas de Polayne tenta servir de contraponto às atitudes da personagem, porém a Renata não caminha no mesmo sentido sendo uma personagem vazia, sem caracterização definida. Quanto ao Pepper, o filme não mostrou quase nada dele fazendo com que a simples menção da banda (ao tocar o LP no quarto) necessariamente não define nem dá “suporte” ao personagem. Nem deu tempo pra isso porque ele morreu antes.
Para concluir, está se criando uma celeuma absurda em torno de um único texto que se colocou de forma bastante incisiva sobre os percalços do curta. Meu texto acabou destoando da maioria de “fãs de última hora” que se deixam levar pelo oba-oba do momento e não se debruçam de forma crítica sobre a obra.
Gostou muito do trabalho de Arthur e André, trabalhei com os dois inclusive, porém a amizade que tenho por eles não me deixa ficar omitindo o que penso do trabalho que fizeram agora.
O meu texto é altamente objetivo e até rasga muita seda porque, reafirmo, tenho admiração pela produção do filme, por isso não desmereci a iniciativa e valorizei dois pontos que considerei muito bons: a fotografia e a trilha.
Abraços e espero que comente os próximos artigos!
Falar merda na internet não é bonito. Se não tiver nada interessante na cabeça, não comente.
Agradeço o comentário e retuito o conselho.
Obrigado por comentar!
Para corrigir algumas informações:
- o Núcleo de Produção Digital Orlando vieira foi criado em novembro de 2005, então ainda é recente, mas não tanto assim.
- Sobre lançamentos de curtas sergipanos posso citar alguns que tive a oportunidade de ir A Morrer, A maldição do cacique Serigy, Avenca, Quatro e Meia, dentre outros que minha memória falha não deixa lembrar.
A repercussão gerada pelo Xandrilá foi grande, mas esse não foi o primeiro lançamento de curta sergipano, é bom ressaltar.
Olá Paula, agradeço muito as informações. Obrigado por comentar!
Sei não, mas ou nego não entende o que é a internet hoje, ou tem medo do lobo mau mesmo.
Aqui é plataforma livre e liberdade de expressão, meus caros!
Foi-se o tempo do cooporativismo e do amiguismo em assuntos que são fundamentais para a sociedade como um todo. Isso é coisa de outros tempos, de uma comunicação social restrita a poucos e centralizada na mão de interesses obscuros. A internet veio pra acabar com isso mesmo. Se não somos capazes de aceitar isso, não serão os poderosos que sempre emperraram e engessaram a produção audiovisual sergipana
Assim que se avança.
Marquinho, parabéns pela crítica sincera e pela hombridade de estar expondo suas opiniões pessoais.
Crítica sincera é uma coisa. Falar bobagem é outra. A liberbade de expressão tem dessas: você pode até falar besteira sem fundamento se quiser, mas depois não pode reclamar do que vai ouvir. O curta não me agrada em nada, se você está achando que estou aqui pra defender às cegas a produção local. Mas criticar às cegas (sem uma mínima argumentação coerente) um texto bem escrito, sóbrio, de idéias claras e bem colocadas, isso certamente me desagrada um pouco.
Obrigado Ítalo pelo comentário. Acredito que um debate sadio começa pelo respeito entre as partes. Como diz o lema do Jornal da Cidade: “Sem liberdade para criticar não existe elogio sincero”.
Abraços e obrigado mais uma vez pelo comentário.
Irlan, obrigado pelas palavras de apoio. Infelizmente temos um árduo caminho pela frente até deixarmos de lado o provincianismo que ainda reina em nossa capital. O cinema sergipano pode tomar um novo fôlego nessa década, mas não depende somente dxs estudantes de audivisual da UFS como alguns deixam transparecer. Abraços e obrigado por comentar.
Sinceramente, eu não conhecia o trabalho do tal André e Arthur e achei muito bacana suas idéias… Sei que falar é fácil, criticar também o problema disso tudo é o FAZER!
O curta está muito bem feito, muito bem dirigido e as cenas… sem comentários. Obvio que em tudo que fazemos temos que melhorar, nunca está bom o suficiente e “vamos” aprendendo aos poucos. Sem falar na atitude dos personagens, principalmente da Renata e do Pepper, não é pra qualquer um não, que mete a cara pra fazer oq eles fizeram (sem medo da crítica e sem vergonha nenhuma), as cenas são “pesadas” pro cenário Aracajuano, sem dúvida, até pelo puritanismo que ainda existe.
Vocês do filme, estão de parabéns, a idéia foi ótima e Aracaju ficou perfeita em tal cenário.
Pessoas vamos aprender a criticar com argumentos e tentar fazer melhor, a “inveja” e a falta de capacidade não estão com nada.
Ando percebendo muitas coisas das críticas, vamos se juntar pq o cenário Aracajuano tem muito a crescer. Eu que estou de fora desse meio vejo que algumas pessoas ficaram com raiva pelo sucesso que está sendo xandrilá, ao invez de se juntar
Olá Pedro, obrigado por comentar!
Comecei a ler o texto e só no fim descobri que era teu Marcos! Que bom saber cada vez mais de notícias de cinema em Sergipe! espero que, mesmo com todos os obstáculos e erros, a peteca só tenda a levantar, sem que se esquecer da necessidade de autocrítica. e espero vê-lo o quanto antes. venha com a família trapo aqui me visitar!
Carol! Que surpresa boa. Espero que a gente se trombe novamente – e um novo filme ou numa roda de amigos. O cinema sergipano tem tudo para deslanchar. Porém, tende a dar com os burros n’água caso não coloque os pés no chão.
Oque li aqui me deu mais vontade de assistir Shangrilá. Temos que aplaudir os corajosos e sem dúvida produzir audiovisual independente é um desafio em nossso País , no qual só os grandes centros são vistos como os melhores.Precisamos desconstruir essa idéia, por isso mesmo, antes de assitir ao filme eu já paabenizo essa galera de coragem que dá a cara ao tapa, mas FAZ! Fazer é oque é imoportante , afinal, só fazendo vamos aprendr e eloluir na arte de fazer cinema. Acredito que quando concebemos um filme ,sempre queremos dizer algo e nunca vamos agagradar gregos e troianos, nem jesus agradou , quanto mais nós simples mortas. Parabéns a toda equipe de Sangrilá e Vida Longa a producào independente nacional.
Sinceramente, Ana Vidigal ( Produtora independente de audiovisual do Amapá )
Oque li aqui me deu mais vontade de assistir Xandrilá. Temos que aplaudir os corajosos e sem dúvida produzir audiovisual independente é um desafio em nossso País , no qual só os grandes centros são vistos como os melhores.Precisamos desconstruir essa idéia, por isso mesmo, antes de assitir ao filme eu já paabenizo essa galera de coragem que dá a cara ao tapa, mas FAZ! Fazer é oque é imoportante , afinal, só fazendo vamos aprendr e eloluir na arte de fazer cinema. Acredito que quando concebemos um filme ,sempre queremos dizer algo e nunca vamos agagradar gregos e troianos, nem jesus agradou , quanto mais nós simples mortas. Parabéns a toda equipe de Xandrilá e Vida Longa a producào independente nacional.
Sinceramente, Ana Vidigal ( Produtora independente de audiovisual do Amapá )
Assisti pela segunda vez e, sinceramente, eu cortaria uns dois parágrafos desse texto. Não existe esse “movimento” recente no cinema sergipano (pelo menos não consciente) que eu falei. Ah, e o filme não dá mais vontade de sair à noite e ir para um barzinho. Dá vontade de tomar Dramin…