Posso dizer finalmente que assisti Xandrilá. O auditório da UNIT/Centro onde aconteceu o lançamento estava entupido de gente na última quarta (6) que prestigiaram também duas apresentações musicais bem díspares quanto ao estilo: patrícia polayne e karne krua. Ambos assinam a trilha sonora do filme.
A análise que pretendo fazer será dividida em dois eixos: o “projeto” xandrilá e o filme em si. Creio que a crítica deve ser pensada levando em consideração diversos fatores sem revanchismo e muito menos puxação de saco. Enfim, uma análise simples e objetiva.
XANDRILÁ ENQUANTO DIVISOR DE ÁGUAS
Parafraseando Lula “nunca na história de Sergipe se viu tanta movimentação midiática em torno do lançamento de um curta-metragem produzido e finalizado nessa terra”. Isso é fato. O trabalho de publicidade capitaneado pelo diretor André Aragão e o diretor de fotografia Arthur Pinto fizeram com que o assunto nas rodas “cult” de Aracaju fosse o mistério do roteiro desse filme. Revistas, jornais e programas de televisão tiveram como pauta a película de André. E olha que só tínhamos um pequeno teaser no blogdoxandrilá que revelava bem pouco.
Além disso, vimos pela primeira vez um conglomerado de empresas sergipanas patrocinando um curta-metragem independente. E aqui está a força do projeto xandrilá. Eles conseguiram fazer com que uma parcela da iniciativa privada entendesse a importância de se valorizar o cinema sergipano. Essa deixa pode alavancar diversas produções engavetadas por falta de incentivo ou por falta de vontade. E aqui iniciamos o círculo virtuoso de que tanto precisa a cena audiovisual sergipana: produção-incentivo-exibição-mais produções-mais incentivos-mais exibições-formação de público que exigirá mais produções, enfim uma cadeia produtiva do audiovisual poderá nascer a partir de um pequeno filme.
Conversei com o diretor do filme André Aragão hoje pela manhã que se mostrou bastante lúcido quanto ao significado de xandrilá nesse momento. A obra é bem menos importante que a força que ela traz em seu bojo. Quem está criticando a obra de forma a desmerecer a iniciativa está metendo os pés pelas mãos. Existe muito ressentimento de realizadores que, por décadas, produziram seus curtas para concorrer ao CURTA-SE, mas nunca pensaram em criar uma rede de produção e exibição nem muito menos tiveram a coragem de dar a cara a tapa para ver seu filme nas telas sendo visto por muita gente. Os produtores de Xandrilá estão tendo essa coragem e vão enfrentar bastante dores de cotovelo da “elite” provinciana que se arrogava como detentores do monopólio cinematográfico sergipano.
O curta Xandrilá deve ser entendido dentro de um contexto. É preciso refletir sobre a atual conjuntura do cinema sergipano. Até Xandrilá passamos pelo movimento super-oitista na década de 70, algumas produções pontuais nas décadas de 80 e 90 e, em seguida o surgimento do CURTA-SE. Em 11 anos de festival tivemos muitas produções sergipanas concorrendo, porém não se tem notícia de um lançamento de curta e muito menos de badalação na mídia em torno de uma obra cinematográfica daqui.
No ano de 2009 é criada a habilitação Audiovisual no curso de comunicação da UFS. Quase ao mesmo tempo o Núcleo de Produção Audiovisual e o SESC investem cada vez mais em cursos de produção audiovisual. A união desses cursos com a vontade de jovens de produzir cinema em Sergipe está assentando as bases da profissionalização do cinema sergipano e um resgate do fazer cinema nesse estado. Do ano passado pra cá tivemos a criação do Kipá, do Fórum Permanente do Audiovisual em Sergipe, do Festival de Cinema Universitário de Sergipe – SERCINE [que acontece nesse mês], da mostra Filmes Del Rey – realizado pelo NPD ano passado e em agosto o Festival Sergipano de Micrometragens – tr3sminutos
O CURTA
Essa análise não ficará totalmente completa porque não assisti ao making off produzido pelo diretor de fotografia Arthur Pinto antes do filme começar. Quando cheguei estava sendo anuciado o nome de Bareta para falar ao microfone. Porém, assisti o filme todo e tecerei alguns comentários sobre a obra de André.
Creio que todxs xs presentes estavam imensamente ansiosxs. Em todo lugar só se ouvia dizer que o filme ficara incrível, que as lentes de Arthur haviam captado imagens belíssimas e que a força do roteiro adaptado junto à direção de André iriam provocar xs espectadorxs de forma nevrálgica.
Entretanto, durante os 22 minutos de exibição, toda a força desses argumentos foram caindo vagarosamente por terra em virtude de atuações medianas e de um roteiro até certo ponto tedioso, marcado e desconexo. Ora, quem assistiu o vídeo ficou com a impressão de que xandrilá conta a história de Renata (Huana Paula) e releva a segundo plano o Pepper (Isaac Dourado) mesmo que sexo e drogas estejam equiparados na sinopse: “o PROJETO XANDRILA busca levar verdades muitas vezes ignoradas pelas pessoas, como o sexo e as drogas, mostradas pelo ponto de vista de um drogado e de uma viciada em sexo” (xandrila.blogspot.com).
Dizem que o melhor ator foi o controvertido apresentador Bareta. Porém, ele representou ele mesmo. Além disso, Amorosa deu um toque sutil ao filme e ganharia tranquila o prêmio de melhor atriz coadjuvante. Aqui percebo também um dado muito interessante que é justamente essa vontade dos realizadores de tratar de um assunto com pessoas do nosso convívio despertando no imaginário do público-espectador esse sentimento de pertencimento a um lugar. Coisa que não acontece quando assistimos filmes produdidos em outros lugares, obviamente.
A trilha sonora segurou o filme com as mãos compondo sensações de um ambiente underground que Aracaju talvez vivera em outras épocas quando a Karne Krua estava em seu auge. A sensibilidade de Patrícia Polayne faz o contra-plano (hehe) fundamental que poderia sugerir um certo dualismo na personalidade da Renata. Só poderia.
Os planos dos filmes são lindos. Duas cenas não saem da minha cabeça: quando Renata está em cima de algum prédio de Aracaju e a câmera focaliza seu rosto deixando a cidade lá embaixo envolta em uma névoa única. Também me recordo das imagens do puma verde-limão mostrado lateralmente focando o rosto de Pepper no retrovisor em alta velocidade. Me deu orgulho. A cenografia e o figurino foram bem trabalhados fazendo a junção perfeita entre o lugar, as roupas e os personagens. O filme te dá a vontade de sair à noite por Aracaju e descobrir um barzinho e algum lugar tranquilo. De conhecer essa juventude que não tem lá muita perspectiva e por isso se afunda nas drogas. De se entregar aos desejos sem questionar se está no caminho certo ou errado. Afinal, a quem pertence os nossos caminhos?
Enfim, Xandrilá é fruto de um movimento criado lá em 2009, portanto muito recente. As críticas ao filme são importantíssimas, pois complementam o trabalho. Em Aracaju existem pessoas que adoram cinema, especialistas na arte e gente que consome obras audiovisuais por puro divetimento. Esses três setores devem emitir opiniões sobre Xandrilá pois irá fortalecer a cena, desafiar novos produtores e manter os realizadores com os pés no chão.
P.S. Ficarei muito feliz se xs realizadorxs liberarem xandrilá na internet
P.S.2 | A liberdade que disponho nesse espaço me deixa bastante tranquilo para escrever exatamente aquilo que penso e falo em todo e qualquer lugar. Entretanto, como forma de evitar possíveis aborrecimentos futuros re-editei o texto cortando o fragmento que conta o desenrolar do filme. Àqueles que se sentiram ofendidos com minhas palavras minhas sinceras desculpas. Porém, não deixarei de dizê-las.
P.S.3 | As fotos foram retiradas do google .